Lenda Pessoal

No aqui e agora, a demanda pela "consciência"... ao sabor da quietude, da pausa e do silêncio, olhando para dentro, observando e procurando interiormente por aquilo que já somos e esquecemos...



Caminho a percorrer.

Caminho a percorrer.
Na viagem interior em direcção à consciência, à essência, ao "core", a queda das capas externas, porque o real está mais perto do interior do que do exterior...

sábado, 11 de setembro de 2010

O CÉREBRO E A CAPACIDADE DE MUDANÇA ESTRUTURAL E FUNCIONAL



(reflexões sobre um texto de Elkhonon Goldberg, Neurologista da Universidade de Nova York e Director do Instituto de Neuropsicologia e Funcionamento Cognitivo) *





As últimas investigações da Neurociência demonstram que a actividade mental modifica o cérebro, podendo conduzir-nos ao que conhecemos como “sabedoria”.
Esta característica, denominada de "neuroplasticidade" ou plasticidade neuronal, contraria tudo aquilo que se deu como certo durante anos, ou seja, que a partir de certa idade a dotação dos neurónios não era renovável.

Assim, a boa notícia é que o Cérebro se pode regenerar mediante o seu uso e potenciação, o que permite moldar a Mente através da actividade (neuroplasticidade).

Sabemos hoje em dia que o sistema nervoso humano, tal como o de outros mamíferos, é extremamente flexível e plástico. Ao contrário, há cerca de 20 ou 30 anos, a ideia era que o sistema nervoso era bastante estático, não só quando em condições normais de funcionamento, mas também quando alterado por alguma lesão. Por essa época, desconhecia-se ainda o facto de que o sistema nervoso não só tem capacidade de responder a situações de aprendizagem, como se modifica e se transforma. Apesar da constatação de que as pessoas mudavam ao longo do tempo, não havia ainda ideia da forma como a estrutura nervosa, neuronal, respondia a essas modificações. Acreditava-se também que as sequelas eram a consequência inevitável de uma lesão neurológica, uma vez que se pensava que a área danificada estaria perdida para sempre, ao que iria corresponder um  inevitável déficit funcional mais ou menos estático e irreversível.

Essa imagem mudou muito nos últimos anos. Por um lado, como resultado das pesquisas sobre reabilitação, realizadas em pacientes com disfunções cognitivas e, por outro, pelo advento de novas técnicas de neuroimagem funcional que permitiram o estudo da substância encefálica durante a realização das tarefas cognitivas.

 Os neurónios constituem-se nas células do sistema nervoso central, as quais possuem a capacidade de estabelecer conexões entre si quando recebem estímulos advindos do ambiente externo ou do próprio organismo. Essas conexões são responsáveis por tudo o que somos. 

O processo pode resumir-se do seguinte modo: uma vez estimulados, os neurónios geram impulsos de natureza eléctrica e libertam iões e substâncias químicas que, uma vez lançadas nas sinapses (espaços vazios entre um neurónio e outro) estabelecem ligações entre eles. A cada novo estímulo, a rede de neurónios recompõe-se e reorganiza-se, o que vai possibilitar uma diversidade enorme de respostas por parte do organismo.

É a essa capacidade que os neurónios apresentam de formar novas conexões que se denomina "plasticidade neuronal". Segundo Goldberg, “o cérebro muda de forma segundo as áreas que mais utilizamos, de acordo com a actividade mental”.

Em Março de 2000, investigadores da Universidad de Londres descobriram que os taxistas dessa cidade tinham uma parte do cérebro, o Hipocampo (região importante para a memoria espacial), mais desenvolvida que o resto das pessoas, porque a exercitavam diariamente ao memorizarem nomes de ruas e estabelecerem  trajectos e rotas.
Verificou-se, assim, que a sua capacidade para memorizar ruas e rotas aumentava com os anos, em lugar de diminuir.



Em 2002, cientistas alemães encontraram os mesmos achados na "circunvolução de heschl" de músicos profissionais, área do córtex cerebral importante para processar a música…
Os mesmos resultados foram obtidos em 2004 no Instituto de Neurologia de Londres, ao nível da "circunvolução angular esquerda", estrutura cerebral importante para a linguagem, no caso do cérebro de pessoas bilingues.

Estas experiências permitiram obter os seguintes resultados: os seres humanos podem criar novos neurónios ao longo de toda la vida.

Neste sentido, concluiu-se ainda que, o esforço para criar novos neurónios pode incrementar-se mediante o esforço mental.

Os efeitos são específicos: dependendo da natureza da actividade mental, os novos neurónios multiplicam-se com especial intensidade em distintas zonas cerebrais.
Os novos neurónios vão parar às zonas do cérebro que mais usamos, ou seja, a actividade pode moldar a mente (neuroplasticidade)

Guimarães dos Santos, Neurocientista da Universidade Federal de São Paulo, refere: "Parece que o processo é mais ou menos o seguinte: quando se forma algum tipo de assimilação, ou seja, de modificação do sistema nervoso em resposta a determinado estímulo, o que se altera é o padrão das conexões e não há necessariamente a criação de novas conexões".

No geral, a constatação da existência de uma plasticidades neuronal veio demonstrar a importância da manuteção de uma actividade mental intensa, ao longo da vida: “O exercício físico protege-nos a saúde ao nível cardiovascular e muscular e o exercício cognitivo protege-nos ao nível da saúde cerebral, facto que se constitui num factor importante de protecção contra a demência”.

Parece-me oportuno salientar que a prática meditativa tem efeitos incríveis ao nível das capacidades cerebrais e psíquicas. Pesquisas científicas têm vindo a comprovar aquilo que os monges tibetanos já sabiam há milénios – a meditação é muito mais do que uma simples técnica de relaxamento; a sua prática regular altera as estruturas neuronais do cérebro, estimulando as emoções e os sentimentos positivos e incrementando as capacidades da mente.

De referir que o impulso para o desenvolvimento dessas pesquisas deve-se principalmente à associação entre Sua Santidade Dalai Lama e o biólogo chileno Francisco Varela (1950-2001), à altura chefe da Unidade de Neurodinâmica do Hospital Salpetrière, em Paris. Nasceu daí o "Mind and Life Institute" que, desde 1987 realiza encontros anuais – um ano no Ocidente, e outro, informal, em Dharamsala, na Índia – para um diálogo entre homens e mulheres de ciência e monges budistas sobre a natureza do universo e da mente.

A quem possa interessar deixo o endereço do site do M.L.I.: http://www.mindandlife.org/

De salientar, entre os estudos realizados por pesquisadores que participam do Mind and Life, as experiências de Sara Lazar, doutora em biologia molecular pela Universidade de Harvard e praticante de ioga e meditação desde há dez anos. Em um trabalho publicado em 2000, Lazar e a sua equipa de pesquisadores mostraram que é possível verificar variações da atividade cerebral (através do uso de ressonância magnética funcional)  mesmo em pessoas com pouca prática de meditação.

Relembro as palavras de Susan Andrews, psicóloga e antropóloga formada pela Universidade de Harvard: “Como você pensa, você se torna. Se diariamente, durante a profunda concentração da meditação, redirecionamos o nosso estado mental para longe dos estreitos e negativos padrões de pensamento, em direção a um sentimento de compaixão e tranqüilidade interior, gradualmente as nossas mentes tornar-se-ão repletas de amor e paz”... Pois é: somos o que pensamos ( e o que sentimos, também! ).

Assim, um treino regular da mente e do espírito, através de técnicas de meditação, modificam a "nossa massa cinzenta", o que levará inevitavelmente a uma mudação ao nível do modo como percebemos o mundo dentro e fora de nós e... como nos percebemos a nós mesmos!



Cognição é sinónimo de inteligência humana, constituindo-se na capacidade que os seres humanos têm de se adaptarem às mais variadas situações, capacidade ímpar no reino animal.
Cognição é o que nos caracteriza e nos torna humanos. É o que faz o homem criar obras como a “Nona Sinfonia” e “A Divina Comédia” ou, em outro extremo, cometer actos de crueldade extrema.


Memória, linguagem e raciocínio lógico-matemático, são exemplos de funções cognitivas, assim como o são os aspectos afetivos e emocionais. Actualmente, não faz sentido a divisão entre razão, emoção e motivação, pois está claro que qualquer fenômeno relacionado com o funcionamento da mente tem subjacentes essas funções, as quais se interconectam de maneira intensa.

Os estudos modernos da plasticidade neuronal vieram ainda demonstrar que os cérebros de pessoas mais velhas não degeneran, evidenciando sim uma evolucão particular, de acordo com a actividade realizada, facto que converte as mesmas em gente “sábia” quando chega a chamada "terceira idade"!
Goldberg recorda mais uma vez que “o cérebro muda de forma segundo as áreas que mais utilizamos”, contudo, à medida que se avança na idade, ocorre naturalmente uma maior deterioração ao nível do hemisfério direito cerebral do que no hemisfério esquerdo. Isto ocorre porque se usa habitualmente mais o hemisfério esquerdo, responsável pelas tarefas já aprendidas e consolidadas.

Na verdade, para aprender algo, necesitamos do hemisfério direito mas, quando alcançamos um certo nível de perícia, essas mesmas actividades passam a ser controladas pelo hemisfério esquerdo.
Ao longo da vida, acumulamos um repertório de destrezas cognitivas, habilidades e capacidades para reconhecer padrões que nos permitem abordar novas situações de um modo familiar. É  o que popularmente chamamos de “experiência”.
À medida que avançamos na idade, a nossa actividade mental está mais dominada por essas “rotinas cognitivas”, ou seja, pelo “piloto automático”. Este facto acaba por ser positivo, pois permite resolver problemas complexos mediante o “reconhecimento instantâneo” de padrões, sem muito esforço, problemas que podem tornar-se em um verdadeiro “desafio” para uma mente mais jovem. ou seja, "sem experiência".

A neuroplasticidade lançou luzes sobre a reabilitação e trouxe uma esperança renovada para os pacientes com lesões encefálicas, os quaishoje em dia podem ser reabilitados dentro de certos limites, porque são dotados de flexibilidade e de plasticidade cerebral,  existindo técnicas mais eficientes do que outras para realizar esse trabalho. No entanto, e durante muito tempo, a idéia de reabilitação foi desacreditada. O conhecimento da neurobiologia da flexibilidade cerebral veio mostrar que as pessoas podem efectivamente ser reabilitadas. Actualmente pensa-se em reabilitação, não só de doenças decorrentes de lesões agudas e de derrames, mas também de lesões crónicas como as que ocorrem nas demências ou na doença de Alzheimer. A credibilidade na reabilitação passou a ser maior quando se mostrou que era possível o sistema nervoso modificar-se e responder aos estímulos.

Assim, a estimulação cognitiva, que obriga a utilizar o hemisfério direito, constitui um ingrediente no estilo de vida, que ajuda a evitar a deterioração cognitiva. A corrente científica dominante sustenta a afirmação de que a vida mental intensa desempenha deste modo um papel essencial em termos do bem estar cognitivo nas etapas mais avançadas da vida.

O que se pode então fazer para estimular a plasticidade cerebral?

Utilizar o encéfalo!, uma vez que este, tal como qualquer outra estrutura do corpo, quanto mais usado for, melhor funcionará.

Mas, é preciso fazê-lo da melhor maneira possível. A melhor estimulação consiste em fazer com que trabalhe de forma criativa. Na verdade, o que é repetitivo e monótono não estimula o funcionamento do encéfalo em geral, nem do cérebro em particular. Actividades criativas e com aspecto motivacional intenso preservam, dentro de certos limites, o aparecimento de doenças degenerativas tais como as demências, melhorando em muito a qualidade de vida de todos nós.



Assim, que tal a idea de se incluir o exercício cognitivo de forma regular como mais uma faceta do nosso estilo de vida?

Sería extraordinário se a nossa incipiente compreensão da função da neuroplasticidade ao nível da conservação da saúde mental, desse lugar ao aparecimento de un novo fenómeno de massas: o fitness mental!

POR MIM ACHO A IDEIA ÓPTIMA! :)

LdCS

* Fonte: Goldberg, Elkhonon; “La Neuroplasticidad”

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