“ARMADURAS ENFERRUJADAS” E ANÁLISE BIOENERGÉTICA – o Resgate da Liberdade, da Graça e da Beleza do Ser.
“O Cavaleiro da Armadura Enferrujada”, pequeno romance do consagrado Robert Fisher, saltou-me à vista recentemente numa prateleira de uma livraria em Lisboa. Apesar de já me ter sido referenciado por amigos nunca o tinha procurado porque penso cada vez mais que as coisas surgem sempre no seu tempo certo, precisamos apenas de estar disponíveis para isso.
A história, tão simples, quanto complexa, do percurso iniciático de um nobre cavaleiro, cuja armadura se lhe colou como uma segunda pele, sem ele sequer se dar conta disso, lembrou-me desde o início a teorização de Wilhelm Reich (1896-1957) sobre as “couraças musculares” e o árduo mas atraente caminho de auto-descoberta proporcionado pela Análise Bioenergética, uma abordagem terapêutica psico-corporal conceptualizada por Alexander Lowen (1910-2008), o qual referia sobre a mesma: “Leva o adormecido Homem-Mente a despertar para o seu corpo, com riso e lágrima”.
Especializado no salvamento de donzelas e na luta contra dragões, o Cavaleiro acabou por sentir a sua armadura como uma conhecida aliada e fez dela sua companheira inseparável, usando-a ao sol e à lua.
Com o tempo, Juliet, a esposa desencantada com o marido, e encantada por vinho, e Christopher, o filho de cabelo cor do sol, esqueceram o seu rosto, bem como a sua forma de ser, as quais ficaram resguardadas pela armadura brilhante. Um dia, pressionado por Juliet, e apesar de contrariado, o Cavaleiro tenta retirar a armadura… esforço vão: a mesma teimava em não sair, nem mesmo com a ajuda do ferreiro do reino. Verificando que nem a martelada deste o fazia sentir dor, o nobre Cavaleiro foi obrigado a concluir que ” … a sua armadura impedia-o de sentir o que quer que fosse, e usava-a há já tanto tempo que se tinha esquecido de sentir as coisas sem ela”.
Wilhelm Reich, psiquiatra e psicanalista, começou a perceber a importância da expressão do Corpo durante as sessões de psicanálise com os seus analisandos. Na verdade, não raramente o ser humano se expressa mais claramente no movimento e nas posturas corporais, do que através das palavras, dado que o corpo não mente, enquanto a expressão verbal é muitas vezes ambígua e enganadora. Desta forma, Reich começou a expandir a técnica analítica, a fim de incluir a observação da expressão física do paciente como componente da sessão terapêutica. Postulou assim uma identidade funcional entre a tensão muscular e o bloqueio emocional, enriquecendo com a abordagem corporal a abordagem terapêutica verbal dos problemas emocionais. Nesta linha, Reich começou a estudar a fantástica influência mútua entre mente e corpo, apercebendo-se cada vez mais que a história individual de cada ser humano se encontra registada fisicamente, ou seja, inscrita no seu próprio corpo, através da edificação de “estruturas de carácter”. Eventuais vivências traumáticas ao longo do desenvolvimento psico-emocional de cada um, muitas vezes decorrentes de uma educação repressora, têm uma enorme influência na formação da estrutura de carácter de cada pessoa, bem como no estabelecimento de autênticas couraças musculares que, com o tempo, interferem negativamente no funcionamento geral do organismo, roubando-lhe vigor, energia e alegria.
O conceito de “estrutura de carácter” equivale à personagem do cavaleiro medieval, constituindo a “couraça muscular” a sua armadura, ou seja, o seu sistema de defesa, o qual se manifesta na rigidez e tensões musculares. Apesar do objectivo de defesa, a couraça muscular acaba por criar um efeito secundário nocivo, ou seja, uma limitação ao nível da mobilidade do corpo (que prejudica as funções agressivas da pessoa) e uma diminuição da sensibilidade (a qual pode levar a uma aumento da agressividade).
Lowen, por seu turno, usa o termo “couraça” somente para as estruturas de carácter que incluem como parte do mecanismo neurótico uma habilidade para diminuir a sensibilidade ao sofrimento.No geral, a couraça constitui-se com o objectivo de bloquear a ansiedade, no entanto, acaba por se tornar numa segunda pele que nos protege de não sentir o negativo, mas que nos deixa sem poder sentir o positivo. Por outro lado, a rigidez inerente à mesma não pode ser indefinidamente mantida sem o perigo de uma explosão emocional ou física. Desta forma, é importante que o processo terapêutico tenha em conta o trabalho com estas zonas corporais de contracção e tensão.
Com a Análise Bioenergética, temos disponíveis novos meios de chegar aos aspectos inconscientes, para além da habitual análise dos sonhos ou da associação livre, características da Psicanálise, como por exemplo a introdução da respiração no processo terapêutico.
A importância do trabalho com a respiração, para o qual se utiliza o "banco bioenergético" (stool), prende-se com o facto de que, de modo a suprimir a ansiedade e outras sensações desagradáveis, a pessoa prende a sua respiração, encolhendo o abdómen, procedimento natural quando é confrontada com situações vivenciadas como ameaçadoras ou dolorosas – com o tempo, este padrão de baixa amplitude respiratória torna-se crónico, sendo que a diminuição da respiração tem como consequência a diminuição da absorção de oxigénio, que por sua vez vai reduzir a produção de energia do metabolismo, resultando este processo numa perda de afecto e de uma diminuição do tónus emocional.
Em Análise Bioenergética, é muito importante o conceito de que as duas funções que dominam a vida vegetativa do organismo são a “expansão” e a “contracção”, movimentos base da “pulsação”, uma das qualidades comuns a todos os organismos vivos. Ao nível somático, como demonstrou Reich, a expansão e a contracção são processos fisiológicos, correlacionados com as actividades do sistema nervoso autónomo (simpático e parassimpático). Ao nível psíquico a “expansão” biológica é percebida como “prazer” e a “contracção” como “desprazer”.
Desta forma, é importante ajudar a pessoa a tomar consciência e a entrar em contacto com a sua rigidez muscular, a qual se tornou inconsciente ao longo do tempo (tal como a armadura do nobre cavaleiro que passou a funcionar como uma segunda pele) e com as dificuldades de mobilidade. Esta condição espástica ao nível corporal, acaba por bloquear o impulso emocional e a pessoa deixa de sentir, fechando-se ao emocional.
Subjacentes ao padrão de rigidez muscular encontram-se os processos energéticos corporais, em tudo idênticos ao pulsar do Universo, o qual se espelha em tudo o que existe, e mais além.
Desde o infinitamente grande (cosmos), ao infinitamente pequeno (uma minúscula ameba) tudo se caracteriza por movimentos de pulsação sintonizados através de um movimento sincronizado, como uma dança divina cósmica.
Desde o infinitamente grande (cosmos), ao infinitamente pequeno (uma minúscula ameba) tudo se caracteriza por movimentos de pulsação sintonizados através de um movimento sincronizado, como uma dança divina cósmica. Culturalmente esta energia vital é designada de formas diferentes: “Alma Mundi” no Ocidente, “Prana” na Índia e C’hi na China, para referir apenas alguns exemplos.
Lowen designou esta energia presente no corpo humano, a qual se manifesta (ou não) nos fenómenos psíquicos ou no movimento somático, por “bioenergia”.
Demonstrou também que os diversos tipos de carácter se acabam por estruturar no corpo, através da interacção da pessoa com a situação familiar que a rodeia, elaborando uma sistematização dos diversos tipos de carácter que se podem estruturar: Oral, Masoquista, Histérico, Fálico-Narcisista, Passivo-Feminino, Esquizofrénico e Esquizóide. A distinção entre estes depende de factores como a ausência ou o grau de rigidez muscular, a flutuação do humor, o grau de proximidade/afastamento/negação da realidade, o grau da repressão emocional, o tipo de vinculação, vivências de privação, supressão ou frustração, etc.
Na prática, ao nível da clínica, verifica-se porém que a maioria das pessoas apresenta uma estrutura que mistura elementos de outra (por ex. a maioria dos caracteres orais apresenta traços de masoquismo, e o masoquista tem traços orais), pelo que a leitura corporal, acaba sobretudo por servir de guia, sem se pretender classificar propriamente a pessoa numa determinada categoria. Pessoalmente prefiro falar de tendências estruturais de funcionamento.
Em termos do processo terapêutico, a interpretação bioenergética da estrutura do corpo da pessoa diz-nos muito sobre a sua história e a sua estrutura emocional, leitura a partir da qual se desenvolve o posterior trabalho terapêutico psico-corporal mais adequado.
A Análise Bioenergética consiste assim numa abordagem física das perturbações de ordem emocional, tendo em conta que os determinantes da personalidade e do carácter são estruturados fisicamente; desta forma, analisam-se duas vertentes da mesma questão: o problema psicológico, bem como a expressão física do mesmo (plasmada na estrutura corporal e no movimento). Consiste no geral de um conjunto de técnicas corporais que visam ajudar a amplificar a capacidade respiratória, bem como libertar as tensões e emoções que bloqueiam o livre fluxo da energia do organismo, através da indução de vibrações corporais e da recuperação da vitalidade.
Não nos resta senão encetar uma autêntica viagem iniciática de resgate da nossa essência, na busca da nossa Verdade e da nossa Liberdade, aprisionados que estamos numa armadura enferrujada que não nos deixa sentir, mas que também não nos deixa viver de forma plena – o que anteriormente nos serviu de refúgio contra a dor, com o tempo, aprisiona-nos a alma.
O Caminho, que passa por uma expansão da mente e da consciência, é tanto mais misterioso, quanto assustador, pois passa por enfrentar dores antigas, fantasmas de antanho que nos toldaram o sentir e esconderam a alegria de viver.
Voltando à epopeia do nosso cavaleiro, chega-se a um ponto em que o mesmo conhece Merlin, sendo elucidado de que a batalha no Caminho da Verdade consistiria em aprender a gostar de si mesmo, começando pela aprendizagem do conhecimento de si próprio: “Arrastou o corpo para se sentar e apercebeu-se… de que podia ver mais do que no dia anterior… Parte da sua viseira tinha partido e caído! – Como aconteceu isto – questionou-se.
Esquilo, um novo amigo, respondeu à sua pergunta mental: - Enferrujou e caiu.
- Mas como? – volveu o cavaleiro.
- Com as lágrimas que derramaste depois de receberes o bilhete em branco do teu filho – asseverou Rebecca (a pomba)”.
E o cavaleiro tem o seu primeiro insight: “É isso! Lágrimas provocadas por sentimentos verdadeiros libertar-me-ão da minha armadura!” – ou seja, a expressão emocional de sentimentos encapsulados e recalcados como libertadora da couraça, o que começa a permitir olhar e “ver” à volta: “Foi um dia especialmente agradável para o cavaleiro. Reparou em pequenas partículas no ar iluminadas pelo sol, à medida que eram filtradas através dos ramos das árvores... Observou atentamente …” – porque, com outros olhos, ou com os olhos de uma alma lavada, muitas vezes é como se víssemos pela primeira vez o que já é conhecido.
A abertura da viseira empenada animou o nosso Cavaleiro; assim, a conselho de Merlin e escudado por Esquilo e Rebecca, o cavaleiro parte em busca do Caminho da Verdade, com o objectivo de atingir o seu cume, missão diferente daquelas a que se habituara, e durante a qual se teria de confrontar / defrontar com três “novos dragões”: O Castelo do Silêncio, o Castelo do Conhecimento e o Castelo da Determinação e da Coragem, única forma de chegar ao cume do Caminho da Verdade.
No Castelo do Silêncio encontra, surpreso, o seu bem-amado Rei, o qual pensava estar numa cruzada, e que lhe explica: “Isso é o que eu faço constar de cada vez que trilho o Caminho da Verdade! Toda a gente entende as cruzadas, mas poucos entendem o caminho da verdade… A maior parte de nós está encarcerado na sua própria armadura! Criamos barreiras para nos protegermos de quem pensamos que somos. Até que um dia ficamos presos atrás das barreiras e não conseguimos libertar-nos”Parar de fugir e de nos alienarmos de nós próprios com “objectos externos”, deixar de lado as “fugas para a frente” e “olhar para dentro”, não é tarefa fácil, nem para um cavaleiro habituado a duras batalhas com seres mitológicos. No livro, o Castelo do Silêncio torna-se a metáfora perfeita para o processo de “parar para pensar, parar para Sentir!”, os quais vão finalmente permitir o ressurgir, por vezes ainda tímido e assustado, e quantas vezes desconhecido, do nosso verdadeiro Eu.
“- Qual a razão destes compartimentos (do Castelo do Silêncio) estarem cada vez mais pequenos? – questionou-se em voz alta.
Uma voz respondeu: - Porque estás a aproximar-te de ti próprio.
Assustado, o cavaleiro olhou à sua volta. Estava sozinho – ou assim o julgara. Quem havia falado?
- Tu próprio – disse a voz. – Eu sou o teu eu verdadeiro.
- Mas EU sou o meu eu verdadeiro – protestou o cavaleiro…. Porque não te manifestaste antes?
- … esta é a primeira vez que estás suficientemente sossegado para me poderes ouvir”.
Surge assim a importância de técnicas meditativas nos primeiros quilómetros do nosso Caminho da Verdade, as quais permitem atingir a simples percepção de que “Você É!”, expressa nas sublimes palavras “Eu Sou,” e não será de estranhar se o nosso “verdadeiro eu” nos parecer de início um estranho… afinal, há quanto tempo não nos víamos!
Tendo entrado sozinho no Castelo do Silêncio, o Cavaleiro estranha a companhia de Esquilo e de Rebecca no Castelo do Conhecimento. “Sam”, o “eu verdadeiro” do Cavaleiro, acompanha-o igualmente nesta nova demanda, explicando: “O Castelo do Conhecimento foi concebido pelo próprio universo – a fonte de todo o conhecimento… O Silêncio é apenas para um; o Conhecimento é para todos”.Para além de ficar a saber que “O Conhecimento é a luz da qual encontrareis o vosso caminho”, o Cavaleiro apercebe-se finalmente das perigosas confusões entre “necessidade” e “amor” e entre expectativas e desilusões, bem como que a verdade é o amor e, sobretudo, que tinha precisado do amor da mulher e do filho porque não sentia amor por si mesmo!
A tomada de consciência de que ninguém pode dar o que não tem, por isso não tem nada de errado querer receber, pois “Só se consegue amar os outros na mesma medida em que nos amamos!
Pouco depois surge a surpresa, e o posterior fascínio, de conhecer a beleza da sua essência frente a um espelho mágico que lhe mostra mais uma vez que tinha colocado uma armadura entre si e os seus verdadeiros sentimentos, vivendo para agradar e não ser rejeitado, escondendo a essência na qual não acreditava poder ser aceite e à qual não dava crédito. Tinha vivido a tentar provar aquilo que era, natural e simplesmente, e que ironicamente tinha escondido: virtuoso, amável, dedicado, altruísta.
Paralelamente à importância da auto-consciência, em Análise Bioenergética trabalha-se também com a noção de “enraizamento” na terra (grounding), um conceito chave nesta abordagem: as pernas originam não apenas sensações físicas, mas também sentimentos – pernas firmes, com energia, e pés bem assentes no chão, resultam numa maior percepção de si mesmo e da realidade externa, o que origina um sentimento ampliado de segurança.
Desta forma, e tendo subjacente a conceptualização de uma identidade que envolve o corpo, os pensamentos, as emoções, as sensações e as acções, a Análise Bioenergética tem vindo a obter bons resultados ao nível do tratamento da ansiedade, da depressão, de doenças psicossomáticas, de problemas sexuais e relacionais, entre outras disfunções.
Para atingir o cume do Caminho da Verdade, faltava ao Cavaleiro um terceiro passo: entrar no Castelo da Determinação e da Coragem onde encontra um enorme dragão de aspecto ameaçador, com capacidade para ler o pensamento alheio: o terrível Dragão do Medo e da Dúvida, cuja missão de vida é derrubar todos os que se convencem de que podem suplantar os outros, só porque passaram pelo Castelo do Conhecimento. Apenas a Verdade, ou seja, o Conhecimento de nós próprios pode aniquilar este dragão: ou seja, é necessária coragem e ousadia para testar o conhecimento de nos próprios, mas a verdade é mais poderosa do que a espada. Tendo nascido virtuoso, amável, e dedicado, compreendeu que não necessitava de provar nada e que o dragão era uma mera ilusão, apenas existindo na medida em que acreditava nele. Quando os Cavaleiros avançam com determinação e segurança do seu valor, os dragões do medo e da dúvida diminuem o seu tamanho. Finalmente no Cume da Verdade o Cavaleiro defronta novo enigma: “… pois o desconhecido não posso conhecer, se me agarrar ao que já conheço”: mergulha então nas suas memórias, vendo passar diante de si as imagens da sua vida, sem quaisquer julgamentos ou desculpas, aceitando responsabilidade total pela sua vida e deixando de projectar a culpa em terceiros, reconhecendo que ele era a causa e não o efeito – compreensões que lhe dão uma nova sensação de poder. Liberto de tudo o que tinha receado e temido e de tudo o que conhecera e possuíra, a vontade de abraçar o desconhecido havia-o libertado. Supera o medo do desconhecido que durante tanto tempo lhe anestesiara os sentidos, e abre finalmente o coração ao amor: “Quase morri das lágrimas que não chorei!”
Devemos assim entender e aprender a vencer o medo do movimento, aprender a realizar o nosso potencial, tendo em conta que o conhecimento não é senão o prelúdio da acção, para benefício de todos e, sobretudo, do nosso “cavaleiro interno”, de modo a atingir o cume do caminho da nossa verdade e resgatar a liberdade de pensar e sentir, a graça do nosso movimento corporal e a beleza de viver amorosamente, com saúde e alegria.LdCS




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